A autoanálise de Thomas Müller em sua pior fase na carreira

Thomas Muller Bayern Darmstadt Campeonato Alemão 18/12/2016

Muito depois do treino terminar, Thomas Müller ainda está no gramado em Saebner Strasse, treinando chutes a gol e cabeceios frente a um gol vazio, com ajuda dos colegas Joshua Kimmich e Kingsley Coman. Mas há uma terceira, e talvez mais importante, figura junto ao atleta de 27 anos, oferecendo conselhos e palavras de encorajamento enquanto Müller aprimora suas habilidades de finalização: Hermann Gerland.

O auxiliar do Bayern, 62 anos, foi o mentor de Müller quando o hoje jogador da seleção da Alemanha ainda era um adolescente no time reserva, e foi ele o primeiro a reconhecer o enorme potencial do atacante. Em 2009, Gerland implorou ao diretor Uli Hoeness para recusar uma oferta de 3 milhões de euros do Hoffenheim pelo atleta de 19 anos.

“Uli, esse cara fará gols”, previu Gerland. Logo todos veriam que ele estava certo.

Oito anos e 156 gols pela equipe principal do Bayern depois, Müller está passando por uma seca sem precedentes em sua carreira, algo que preocupa o futebol alemão como um todo. Ele marcou quatro vezes em 24 jogos do Bayern na temporada 2016/17, sua pior marca desde que se tornou profissional.

O que está acontecendo?

Quando Müller finalmente vem do gelado campo de treino para sentar e conversar com o ESPN FC, nota-se um jogador que dá pequenos sinais de estar frustrado consigo mesmo. Ele parece relaxado com sempre, fazendo brincadeiras com o câmera e tirando sarro da atrapalhada letra escrita de seu interlocutor.

“Eu não conseguiria ler isso”, ele diz, enquanto sorri.

Apesar de tudo, Müller admite que há um certo grau de descontentamento não só em relação a ele, mas quanto ao desempenho de todo o time, que não vem convencendo, apesar de estar liderando a tabela, com oito vitórias seguidas, além de estar disputando três competições: Bundesliga, Copa da Alemanha e Uefa Champions League.

“Isso é o Bayern de Munique”, afirma, erguendo os ombros.

Segundo o atacante, o time está sempre no topo por causa dessa atitude perfeccionista.

Thomas Muller Treino Bayern 05/01/2017
Thomas Müller em treino do Bayern

“Não ficamos satisfeitos se vencemos um jogo que não sentimos que foi nosso. Nós ganhamos as últimas três partidas fora de casa no sufoco. Foram jogos difíceis. Você pode procurar os motivos… Talvez tenham sido os gramados. Agora, o tempo não está muito bom para jogar futebol na Alemanha. Mas isso é só uma pequena parte. Não estamos jogando no estilo que queremos jogar. A bola não está se movimentando como queremos. Temos boa mentalidade e ótimos jogadores. Mas queremos mais. Mais controle”, brada.

Alguns de seus colegas de equipe explicaram a campanha claudicante, em termos de futebol jogador e não de resultados conquistados, como consequência do técnico Carlo Ancelotti e os jogadores ainda estarem se acostumando uns aos outros. Mas Müller discorda.

“Não acho que esse seja o problema”, ressalta.

“Todos precisam se olhar no espelho e pensar por que as coisas não estão funcionando tão bem. Acho que é mais um problema do time do que dos indivíduos. Nós, como jogadores, temos que encontrar a solução para ser ‘mais time’, mais compactos no campo. As distâncias estre nós estão muito grandes. Temos muitos problemas com a segunda bola. Contra o Freiburg e o Werder Bremen, tivemos que defender tanto que não criamos muitas chances”, salienta.

Müller parece particularmente irritado quando cita esses dois jogos vencidos por pouco fora de casa. Seu desempenho está longe do bom reinício que ele havia prometido fazer nas entrevistas que concedeu durante a parada de inverno da Bundesliga. Ao contrário: seu futebol segue na antiga, enigmática, má fase que o segue desde sua Euro-2016 sem gols. Ele admite que tem “poucos argumentos” a seu favor no momento.

“Minhas estatísticas (em termos de gols) não são as mesmas de anos recentes”, lamenta.

Mas ele diz que tudo tem que ser colocado em um contexto.

“Quando o time não está jogando bem ofensivamente, é sempre um problema para mim, porque não sou um jogador individualista”, explica.

“Eu não tenho a capacidade de pegar a bola no meio do campo e driblar seis caras. Quando nosso posicionamento e jogo com a bola não está tão bom, então meu jogo sofre também. Eu posso fazer gols em jogadas ensaiadas, essas coisas, mas eu tenho que estar envolvido em combinações, fazer minhas corridas sem a bola, jogar em profundidade. Quando encontramos nosos jogo, atuamos mais com a bola no chão, pelo meio, e combinamos melhor as jogadas, fica mais confortável para mim também”, explica.

Ele espera que um retorno à Allianz Arena após dois jogos em campos irregulares vai melhorar imediatamente o time, e acrescenta que a pressão que ele faz sobre si mesmo para ter sucesso é “mais objetiva” que a da mídia, que constantemente usa um único dado estatístico para argumentar.

“Se eu olhasse apenas para os dados sobre o quanto estou correndo, eu deveria ter marcado 35 gols já nesta temporada, porque estou correndo mais do que no ano passado”, comenta.

Dados crus à parte, há uma visão na Alemanha que Müller, um atacante abençoado com o instinto de estar sempre no lugar certo na hora certa, pode estar pensando demais em campo. Questionado sobre isso, ele chacoalha a cabeça.

“Não acho que penso demais. Tento trabalhar duro, talvez mais duro do que quando as coisas estão boas e tudo parece fácil. Não sou negativo. Eu tento pensar na próxima chance, no próximo jogo, na próxima oportunidade de jogar bem”, diz.

“Eu tento me divertir. Tento apoiar meus colegas, e eu penso no jogo em si quando não estou na posição correta no momento ideal. Mas eu não posso influenciar todos os fatores em campo que podem me ajudar. Não posso pensar pelos outros caras. Eu foco em meu próprio jogo e em fazer coisas que são importantes para o time. Para mim, é claro que seria ótimo fazer mais gols”, afirma.

Não só para ele…

Sem os gols de Müller, o Bayern tem se visto obrigado a apostar em momentos de brilho individual de Robert Lewandowski e Arjen Robben. Uma estratégia arriscada, especialmente contra adversários de melhor nível, como na Uefa Champions League.

“Nós temos que melhorar”, opina.

“Não é o bastante ficar pensando que, de alguma maneira, vamos forçar até encontrar um jeito de ganhar o jogo”, acrescenta.

Ainda mais contra um adversário familiar como o Arsenal, novamente o adversário nas oitavas de final da Liga dos Campeões. O Bayern sempre prevaleceu contra os comandados de Arsene Wenger. Mas esse recorde perfeito esconde algumas coisas.

“Eles estão em ótima forma. Têm ótimos jogadores e um excelente técnico”, elogia Müller.

“Eles estão se sentindo confortáveis, mas ao longo dos últimos anos, nós também nos sentimos confortáveis. Depois dos jogos contra o Arsenal, espero que as coisas continuem as mesmas. É sempre difíceis enfrentá-los, porém”, ressalta.

Müller se lembra especialmente de 15 minutos muito difíceis no início do jogo de ida das oitavas há três anos, quando o Bayern sentiu-se “realmente sob muita pressão” até que um pênalti perdido por Mesut Özil virou o momento do jogo. Os alemães acabariam vencendo por 2 a 0 no Emirates Stadium.

“Nós também perdemos por 2 a 0 em casa para eles (em 2013) depois de ganhar por 3 a 1 em Londres. Ficamos muito perto da eliminação naquele dia”, lembra Müller.

Thomas Muller Ribery Bayern Werder Bremen Campeonato Alemão 28/01/2017
Müller e Ribéry tentam jogada em partida do Bayern

“Contra esses times top, qualquer coisa pode acontecer. Na maioria das vezes, você vê bom futebol, sem muita defesa e destruição. Os dois times querem a bola. Ambos querem jogar futebol”, explica.

Müller marcou quatro vezes em seis jogos contra os Gunners, então há certa razão para ficar otimista. Será que ele e seu time podem seguir um caminho diferente das últimas três campanhas com Pep Guardiola, que viram o Bayern chegar ao seu pico antes do Natal e cair ao longo da segunda parte da temporada? 

“Talvez as coisas sejam diferentes. Mas não sabemos”, diz Müller.

“Mas Carlo Ancelotti é o ‘Senhor Champions League‘, então a torcida do Bayern tem muita esperança de que essa seja uma temporada especial”, encerra.

Se o italiano tem que viver com a pressão de toda essa expectativa criada, Müller também tem que se lembrar de seu apelido.

Os bávaros precisam, mais do que nunca, que o Raumdeuter, ou o “intérprete de espaços”, encontre o caminho dos gols novamente.

*Tradução de Francisco De Laurentiis. Texto original disponível aqui.

Fonte:  http://espn.uol.com.br/

São Paulo – Brasil – 23:08

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Josy Galvão

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