“Eu te amo” versus “Ich liebe dich”

Há quase duas décadas na Alemanha, o colunista Ricardo Domeneck ainda pasma com as diferenças entre brasileiros e alemães em relação ao amor. “Para eles, parecemos saídos de uma telenovela.”

Symbolbild Universität Seminar Bibliothek Flirt (Yü Lan/Fotolia)

Sim, dizem que “ich liebe dich” quer dizer “eu te amo” em alemão. Será mesmo que “eu te amo” quer dizer “ich liebe dich” em português? Não quero relativizar sentimentos que certamente ocorrem por toda a espécie, independente de cultura. Os poemas de amor de todos os tempos e lugares estão aí para confirmar. Ora, é patente que ele (em português, é masculino o sentimento, o amor) ou ela (em alemão torna-se feminino, “die Liebe“) pode ser observado até mesmo em outras espécies. Algumas espécies são monogâmicas. Outras são poligâmicas. E nós, Homo sapiens? “Nós quem, cara pálida?” – alguém poderia responder.

Há quase duas décadas na Alemanha, ainda pasmo por vezes com as diferenças entre brasileiros e alemães em relação ao amor. A essa coisa que chamam de amor. Como podem por vezes ser diferentes as reações a situações tão parecidas. Minha impressão ainda é que, para eles, parecemos saídos de uma telenovela, e nem mesmo das brasileiras, mas das mexicanas. Exagerados! Dramáticos! Gosto de brincar que é tudo culpa de Dolores Duran, Chico Buarque e Angela Rô Rô. Essas nossas lições de fossa.

Eu não deveria ter ouvido tantas vezes os versos daquela canção: “E que me sobe às faces e me faz corar / E que me salta aos olhos a me atraiçoar / E que me aperta o peito e me faz confessar / O que não tem mais jeito de dissimular / E que nem é direito ninguém recusar / E que me faz mendigo, me faz suplicar.”

Não é à toa. Olhem isso. Exageradíssimos. Não consigo pensar em algo equivalente entre os alemães. Sempre brinco com outra coisa: para nós do sul, virar os olhos é expressão de êxtase. Para os do norte, é expressão de tédio.

Pensem bem: na década de 1970, quando Chico Buarque estava compondo “O que será (À flor da pele)”, por aqui reinavam supremos Kraftwerk, Can e Tangerine Dream. Enquanto Chico Buarque e Milton Nascimento soltavam seus falsetes, por aqui cantavam “Wir laden unsere Batterie / Jetzt sind wir voller Energie / Wir sind die Roboter” [“Nós carregamos nossas baterias / Agora estamos cheios de energia / Nós somos os robôs”]. Carambola, vamos nos entender como? Está certo, está certo, estou fazendo exatamente o que eles reclamam que eu faço: exagerando.

Mas deixem-me contar uma história: certa vez, levei um pé na bunda de um alemão. Sofri como um condenado, como um camelo, estava mais perdido do que cachorro que caiu de foguete espacial. Sabe a Laika? Pois é, a Laika.

Estava na casa de um amigo, que olhou para mim, lá sofrendo, e disse: “Como deve ser difícil ser assim.” Eu falei: “Assim como?” E ele respondeu: “Sofrendo como um condenado por causa do fim de um namoro.” Fazia duas semanas! “Criatura, faz duas semanas!”, eu disse. “Ainda vou sofrer por seis meses pelo menos.” E ele respondeu o de sempre: “Como você é exagerado.”

 

 

Matéria originalmente publicada por:     http://www.dw.com/pt-br

São Paulo – Brasil – 20:25

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Josy Galvão

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